Desço as escadas que me vão levar à garagem onde se executam obras de adaptação. Há um amontoado de lixo embalado em sacos plásticos negros e as paredes ainda de tijolo por cobrir parecem esfoladas.
Não há luz. Ainda não está restabelecido o sistema eléctrico que permite uma descida segura às catacumbas, mas apalpo as escadas com os pés e tacteio as paredes até encontrar o fim e uma frincha de luminosidade que me permite chegar ao pé do homem. Está sozinho que os outros foram de carrinha:
- Falta matéria-prima. Sem ovos só se faz moleza.
Posso sorrir, posso sentar-me no muro por acabar e esperar com ele, posso fingir que estou atento à evolução da obra, posso mesmo recuar e voltar a subir ao encontro do dia, mas fico parado e espreito.
O homem é jovem (tão jovem, que jovem era?). Não tem mais de vinte anos morenos e robustos. Não chega a ser interessante ou atraente. Tem uma boca perfeita e dentes imaculados, um tronco musculado que percebo por relance e hábito e um redondo rabo pequeno como um fruto rijo de uma Primavera de outros tempos.
Nada que não tenha tido já, nada original que me desperte a gana, a não ser o modo como se move, como anda e roda o corpo nesse andar. Parece-me demasiado homem, demasiado másculo, demasiado viril. Há um resíduo de suspeita que me intriga e nessa migalha imperceptível encontro o cheiro a caça.
Aproximo-me. Toco-lhe no elástico das calças bambas e manchadas. Descaradamente. Há situações em que o ataque tem de ser certeiro e sem hesitações. Não há lugar para ciladas ou armadilhas quando se adivinha a presa fugidia.
Salta. Desconfia.
Volto a tocar.
Agora estico o elástico.
Empurra. Está corado e não entende nada ou já percebeu tudo. Seja qual for o caso, não vai sair ileso. Sinto-o nos olhos a ferver de medo.
Não há resistência no elástico. Puxo-o contra mim. A minha mão desliza. Sinto-o a tremer e gosto de lhe sentir o espanto que há no fim do medo. Os meus dedos nos pêlos. A polpa dos meus dedos na curva incipiente do sexo que não sabe da razão porque deseja. O arfar vencido, o bafo do que perde, o sexo que se ergue enquanto o não querer é já distante. Os meus dedos enrolados na curva já perfeita e quente e a latejar. Uma serpente, uma pulseira, a corda que estrangula, a morte, tão pequena, quase a vir, quase a vir, quase a chegar enquanto pulsa a jugular em fúria.
O camião a buzinar medonho, que os ovos já chegaram e já não há moleza.
As sardinheiras espanholas estão quietas e amordaçadas pelo frio. Em breve, muito em breve, é tempo de, na rega, as adubar. A minha avó previne.
Há um sossego de sombras no jardim e só a gota de chuva, que escorrega do baloiço da folha, estilhaça as pacíficas superfícies da quietude.
A minha avó de pérolas olha o colar de melancolia pousado no regaço. Tem o alfinete de âmbar a prender o xaile, como uma pulseira da cor de troncos de árvores transparentes, que enrolou nos ombros.
- Tens de cuidar de tudo, meu pequeno. – Volta a pedir.
Eu cuido, avó. Cuidar é uma palavra tão perfeita!
- Eu cuido, avó. Já não sou pequeno.
Olha para mim e toca-me no braço. As mãos como se fossem duas gotas ou dois ventos amenos que se enredam nas sebes do jardim.
- És tão pequeno ainda, meu menino. És tão menino ainda! Cuidas de tudo?!
- Eu cuido avó. Descansa que de tudo.
Sorri e volta a olhar, lá fora
- Eu sei que cuidarás. O teu avô sabia.
- Ainda dói muito, avó, a falta dele?
A minha avó de pérolas olha o colar de mágoa pousado no regaço.
- O teu avô olhou tanto para ti que quando te vejo agora, meu menino, sei também do teu avó em ti. Cuidas de mim?
Cuidar é uma palavra tão perfeita.
Vou trair o Rastas, cedo ou tarde.
Não há razão de peso (raramente a palavra é tão certeira), a não ser o reconhecimento de que a fidelidade é em mim um vício que preguiça pendurado na alma. Provoca-me um embaciado quotidiano de apatia e uma indiferença morna e fraldiqueira que me faz rolar embrulhado em panos pelas pedras.
Trair o Rastas é não me sentir cansado ao acordar.
Não sou fiel, fico apático.
A fidelidade é uma tira de veludo de cor indefinida que não sei atar definitivamente.
Aborreço-me e o meu corpo aborrece-me depois.
Jorrado pelo chão assumo que não consigo deixar de ser um predador. Estou de pé e ouço os latidos dentro do meu sangue no incontornável desejo de caçar e vejo-me de carne desgarrada.
Quando os uivos dos bichos são de cio, a lua mansa e terna é só a luz que guia a garra do animal.
Há beijos fáceis de periodizar. São como livros. Nos primeiros parágrafos encontramos a época que os produziu e percebemos quase no imediato o pulsar do tempo em que tiveram as suas primeiras edições.
Há beijos medievais, de torneio colorido, de cantiga de amigo ou de inventar de amor, de mal-dizer o escárnio. São beijos de armadura, lances de espada e escada de torre sem ameias. São quase amor cortês, quase que trazem preso na língua o lenço de donzelas coroadas e cascos de cavalos brasonados.
Há beijos renascença, descoberta. De cachos de uvas de ouro nos vestidos e janelas voltadas para Florença. Beijos cinzelados, erguidos numa praça em que a boca é catedral pagã onde o poder é humano e onde há poetas e pincéis ensandecidos a parir deslumbre. São beijos de murais e de reboco fresco. São beijos dos Infernos ou portas vaticanas.
Há beijos que se arrastam nos salões da carne. Beijos partitura para cravo. Brocados e decotes rebuscados. Beijos que brincam nos jardins simétricos dos lábios e usam laços para prender as pombas. São beijos com sinais no rosto e cabeleiras. Beijos com leques e rendas no púlpito dos anjos.
Há beijos dolorosos. Desejam a ardência do ficar dentro de nós e ter ao mesmo tempo a plenitude dos universos longínquos que se perdem na boca dos beijados. Ardem no peito, amenos ou horrendos, paisagens desgrenhadas ou abismos onde se tomba de alma toda inteira, irremissível pecado e salvação. São beijos luminárias.
Há beijos só em carne viva. Beijos que esquadrinham sem pudor. Observam e revelam. São quase descritivos, quase a vida toda dissecada. São beijos bisturi.
Há beijos trepidantes, quase exaustos. Cruzam paisagens. Recortam-se no espaço atravessados por velas de navios e tabaco. Farrapos de outros lados exauridos. São beijos desunidos.
Há beijos opiários, Oriente e luxo. Volúpia e decadência e exotismo, onde os sentidos se amarfanham como as rodilhas brancas de um piano ou os voos coloridos, doloridos, de dandy que se esgota em absinto e morte.
Há beijos que se querem. Outros não.
Já tive todos.
Nenhum é igual ao teu, de manhãzinha.
O amor, se desatento, provoca a sonolência de uma certa autoridade que temos como certa e evidente.
Amar é um descuido que dos guerreiros dormentes faz pequenos brinquedos de chumbo no tabuleiro dos deuses.
Era velhíssimo quando, ainda adolescentes, passávamos o Natal em casa da avó Matilde e o desafiávamos com uma crueldade sem perdão.
Na altura, o jardim gradeado ainda não tinha as sebes adultas que depois protegeram o interior e o “Volante” parava sempre, esfarrapado e sujo, quase nauseabundo, para espreitar as raparigas ou para receber às escondidas os pequenos cabazes de fruta, pão, carne e enchidos que a Luzia lhe entregava com o cúmplice desconhecimento da minha avó.
Enfurecia-se aquele homem, desbravado, eriçado e tresloucado quando, por distracção ou propósito, lhe chamavam “Volante”.
- Oh! Volante! Chega aqui, homem! – e o velho sacava de uma faca romba e esgadanhava-se transformado em insultos, guinchos e gritos e pinchos de estarrecer o demo. Capaz de arrancar e espezinhar a alma a uma qualquer criatura casta que lhe ouvisse aos brados, era ele.
Tínhamos sido proibidos de lhe acicatar o ódio. Obedecíamos. O “Volante” passava pacífico recolhendo os cabazes escondidos, até a Laura ter engendrado um modo mais cruel ainda de lhe morder a miséria. Mal o via ao longe, a Laura corria à maior janela que dava para o jardim, abria as portadas e de dentro, mal que o homem desse conta, a minha prima imitava o ruído de um carro, guiando-o de braços estendidos e mãos presas e fincadas num volante de bólide.
- brrrrrummmm, brrrrrrrummmmm ….hummmmmm… – roncava o motor que não havia.
O homem estarrecia. Olhava e via as mãos rodando um aro de nada e percebia. Desmanchava-se na fúria habitual. Cuspia insultos. Parava a estraçalhar palavras e impropérios. A Laura, então, travava, agarrada a um travão de mão do carro na janela.
- hiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!...
O homem aquietava-se e sem cabaz lá ia. A Laura começava:
- brrrruuuuummmmmmmmm….
De novo mais insultos, mais gritos e peçonha.
- hiiiiiiiiiiii….
Até perder de vista.
A crueldade parou quando a minha avó encontrou a rapariga, à janela, empoleirada numa cadeira a gesticular e a roncar já como um calhambeque poder.
Foi a primeira e a única vez que vi a minha avó esbofetear alguém.
Nunca mais o vi. Das poucas vezes que perguntei por ele, recebia parco troco. Que estava bem, que tinha conseguido comprar uma casita com um terreno fértil (talvez herança que veio sem contar), que passava por vezes por ali a cumprimentar. Mais nada e eu esquecia.
O “Volante” morreu.
A Laura soube da notícia por telefone, ontem à noite, poucas horas depois do acontecido. Manteve-se em silêncio durante um curto tempo e depois confessou o mais desconforme e inverosímil:
- O Sr. Jorge escrevia-me todas as semanas. Eu sabia que estava a morrer. Diz à avó que cumpri durante todo estes anos o que lhe prometi naquele dia.
Desatou a chorar e desligou.
Acabo de saber, pela avó Matilde, que todos os meses o Banco transferia de forma automática da conta da Laura uma soma considerável para uma outra conta titulada por um Jorge Ferreira, o “Volante” que morreu agora.
(Rodrigo Blaas)
A mulher passa no passeio da Avenida e vejo-a passar de canastra à cabeça. Sem mãos, como eu mais pequeno passava na Avenida de bicicleta, também sem mãos no fio do equilíbrio.
Ah!, peixeira de coturnos pretos sem pregão, que levas à cabeça a tua sina como se andasses de bicicleta, ensina-me a passar na Avenida com um pedaço de mar à cabeça sobre a alma enrodilhada.
Diz-me como se atravessam as ruas de coturnos pretos nos pés e nas ruas com uma canastra sem mãos a oscilar e meia dúzia de ondas cobertas com telas de navios.
Diz-me como entras no meu quarto a gingar a alma de canastra e atravessas os vidros da janela no fio do equilíbrio como se andasses de bicicleta e eu fosse ainda menino.
Diz-me com se passa na Avenida com ondas na cabeça cobertas por um lenço preto por onde passa a bicicleta com rodas de meia dúzia de peixes sem mãos.
Diz-me como se torce o farrapo de navio que equilibra a canastra na tua cabeça e ensina-me a atravessar as ruas como se fosse menino outra vez, porque a minha alma sem mãos é a tua rodilha.
A indiferença sem grandeza constrói-se, demasiadas vezes, com uma ausência de palavras.
É um animalzinho açucarado preso no lugar mais negro da mais comezinha das simulações de felicidade. Limita-se a existir calado a roer as sílabas da existência do hospedeiro, esgotando as razões do que havia para dizer.
Deixamos vagos os lugares que sentíamos. Deixamos de ter labirintos. Somos fios, rectas inúteis traçadas por uma barra de carvão que nos suja os dedos e nos deixa fixos na impossibilidade do encontro.
O Jornadas é agora um desencontro. Sinto-o moribundo.
Tenho de ter três razões para impedir o desligar da máquina.
Gostava que mas dessem para não ter de o findar, talvez sozinho.
Arte de Amar
I
O Beijo do Insecto
De corpos imóveis se faz este beijo. Nenhuma superfície de pele será tocada. A nudez não tem lugar a não ser a do silêncio e a da lentidão das bocas. O Beijo do Insecto é a um abeiramento, não é uma invasão. Exige a contenção das árvores que adivinham o momento de cortar a vida às folhas, a segurança das raízes que reconhecem o húmus e a estabilidade da seiva que corre de acordo com o batimento do Universo.
O Beijo do Insecto constrói-se primeiro nos olhos. É do olhar que parte a boca.
Abeira-te do que será beijado. Que o teu corpo iniba todo movimento de modo que a imobilidade seja comum aos dois. Percebe então a pele do que se prepara caminhando-lhe pelos caminhos do rosto. Aquece os teus olhos na curva do nariz do que vai ser beijado, no dealbar dos lábios, no início das pestanas e no sulco nasal onde poderás deixar as tuas íris. Sente-lhe o morno sopro das narinas e quando sentires sem ver o latejar da boca que te espera, aproxima a tua devagar. Não cegues. O Beijo do Insecto é sempre um beijo aberto para o visível. Nunca penetra nos jardins fechados e caóticos do negro em paroxismo. É um beijo de jardim geométrico e fatal.
Os teus lábios afloram o espaço que pertence aos lábios do beijado. Ao milimétrico espaço de um suspiro. A tua boca vai mimar o voo de um insecto que hesita no pousar, que ronda às duas pétalas e que receia a morte naquela flor carnívora.
Roda o teu rosto, mas mantém a boca o centro fixo do inclinar que oscila. Os teus olhos devem perceber as estrias dos lábios que te esperam e a tua língua antever as labaredas. Não toques. Procura os batimentos do peito no latejar dos olhos daquele que te quer. Permanece na busca das linhas húmidas da boca do outro. Saberás do Beijo quando no oscilar lento dos teus lábios encontras o desistir dos olhos do beijado. Nunca percas a consciência da fragilidade do insecto. A força de um voo em fuga depende da envergadura das asas, por isso teme o encarnado que carnívoro vibra à tua espera. Lembra-te que quando a flor se abrir terá de estar rendida. Benévola será então na tua língua.
Quando adivinhares o pulsar do húmido que te chega aos lábios, a tua língua tocará no bolear da boca do beijado. É a pata de um insecto, tem consciência.
Se aquele que beijares tremer e desistir da vida para ta entregar coberta de saliva, saberás então que aprendeste e a segunda lição já pode começar.
A rua passa por mim encharcada.
A razão da rua passar é minha imobilidade à beira da água.
Vejo uma mulher de impermeável a entrar num carro. O guarda-chuva tem uma vareta partida como a imobilidade com que a vejo passar a rua. A minha visão é um guarda-chuva quebrado que deixa a água entrar na minha inércia.
Penso-me moribundo.
A acalmia do estar imóvel é a ausência do sentir. A indiferença com que olho a mulher de impermeável e de guarda-chuva quebrado é a minha apropriação da rua, a ilusão de a não ver a passar.
Olho e a mulher entra no carro. Deixou o guarda-chuva preso à estrada.
Tudo é inútil.
Apesar se ter sido prevenida com antecedência e cuidado sublinhado que o senhor pertencia a uma renhida organização de defesa animal, a minha imã surge na reunião com o inconveniente casaco que possui há demasiado tempo e que raras vezes usa, porque o condenou ao exílio por não o considerar suficientemente arrasador.
É um casaco de caxemira preto de porte marcial. Curto, de ombros largos, quase rígidos, de abotoadura dupla, cintado e muito justo. Nos punhos altos e na gola subida, rente ao pescoço, as tragédias dos visons!
O senhor franze as sobrancelhas.
Elogia a magnífica imitação do pêlo e deslumbra-se com a determinação com os criadores salvaguardam as inocentes vítimas da soberba e da futilidade humanas.
A Rita acende o primeiro cigarro da manhã. Ergue os olhos ensonados e, depois de beberricar o chá que lhe serviram e de morder um biscoito de canela, atira a migalha de uma informação fatal:
- Não são imitações. São visons mortos e devidamente tratados para que eu os possa usar sem muito medo.
O senhor corou. Tenta sorrir. É nítido e confrangedor o embaraço.
- Temos de carregar os erros que cometemos no passado. Mas não se preocupe. Já prometi não usar os netos destes bichos.
Despe o casaco e carrega no gatilho uma vez mais:
- Agora já podemos discutir quantos sobreiros quer ver abatidos para criar a sua plataforma panorâmica?
O senhor diz que sim, que já tem as contas feitas e o casaco é entregue à secretária.
Niergends
fragt as nach dir
Em nenhum lugar/perguntam por ti
All I wanted was your time,
What you gave me was tomorrow
Durutti Column
Usa agora para dormir um pijama quente que lhe fica curto nas mangas.
O princípio do amor é quando a nudez deixa de ser necessária à sedução.
Tem sempre frio e sempre dormiu mais do que eu. Cubro-o com a manta de lã e olho-o a dormir. Gosto sobretudo de o olhar assim de corpo manso e despojado da masculinidade que me incomoda às vezes pela tranquilidade com que existe.
Este homem foi de modo imperceptível cativando o núcleo duro da minha família. A minha mãe protege-o de mim, agasalhando-o com as repreensões que me dirige. Gosta de o levar a fazer compras ao mercado e deixa que ele escolha o peixe e a carne. O meu pai aprendeu a ouvir jazz e discute as improvisações dos saxofones por dentro de penosas madrugadas musicais. A minha irmã, com ele, abdicou dos silêncios inquietantes com que despreza os outros e não usa as palavras como pedaços de vidro de uma garrafa partida. As minhas avós debruçam-se e precipitam-se na briga pela atenção do homem que consegue ouvir até à eternidade os desabafos de inferno ruivo da minha prima a estalar de longe as linhas telefónicas doando o paraíso a contas a pagar.
Vejo-o dormir. É tão ameno!
Sem consciência acabei no corpo dele e sem consciência corpo a corpo desisti dos outros.
Acredito nele desde o instante em que lhe toquei o medo, em que o vi tremer e quase que oscilar, quando disse (a única vês que o disse) que me achava bonito. Pediu-me desculpa à beira da angústia e do desgosto.
Quando lhe peço para ficar comigo o travo de um minuto, ele pousa-me nas mãos o dia todo inteiro e o amanhã.
E é sereno este amanhã agora.
(Foto - Camille Rigoux)
O preto fica-te bem. Confunde o teu perfume. Deixamos de saber se foram os teus olhos que nos tocaram a pele ou se quebraste o aroma dos vidros indefinidos do voo da íbis.
Quando te ergues afastas os pássaros, porque nenhuma alada história se sobrepõe à tua.
Amo-te soberanamente, como um guerreiro antigo, porque a tua fragilidade dissimula a guerra.
A minha obediência é uma mulher de sorriso imóvel e mudo. Usa avental branco e saias rudes de fazenda espessa, compridas e rodadas. Tem um rosto redondo e pequenas rugas fixas nos cantos dos olhos poucas vezes fixos nos que a olham e unhas sujas de terra e de descascar batatas. É ligeiramente curva e traz um xaile cinzento esburacado a cobrir-lhe a indiferença.
Cheira a sabonete.
A minha obediência faz trabalhos de casa. Cose, remenda, emenda, cozinha, esfrega os soalhos, engoma e asseia os quartos, serve o pequeno-almoço nas camas e estende a roupa depois de a lavar nos tanques com sabão antigo, cuida da louça e está atenta ao brilho das peças de prata.
É silenciosa.
A minha obediência faz as camas onde se deitam os outros. Aconchega-lhes os lençóis, murmura-lhes histórias até que adormeçam. Apaga as luzes e encosta as portas. Depois, por entre a noite, a minha obediência sobe as escadas, entra nos quartos descalça e, em bicos de pés, começa a estrangulá-los.
A minha obediência é uma das chaves da minha sedução.
Encontramo-nos nas palavras que eu escrevo. Debruçados os dois nas grades de uma letra ou nos vidros de outra. Nos arcobotantes que sustentam as paredes dos fonemas, nos claustros dos sílabas, nas eixos e nos segmentos de outras rectas, nos arcos e tangentes, nas ogivas.
Se escrever o nome de uma flor, de um bicho ou o nome das águas que passam por aqui, ou da terra, ou dos pássaros, o que tu leres é já a flor que não escrevi, o bicho, a água ou o pássaro que não vi a voar na ausência de papel.
Posso escrever camélia. Encontro-me contigo na inexistência do perfume. Escrevo camélia e a flor escrita é de um vermelho pálido. A tua é branca. No entanto existe no papel apenas a palavra.
Posso deixar de escrever camélia, se o quiseres. Obedeço-te. Não nos encontraremos mais numa palavra. Arranjaremos outros lugares para cruzar as vidas. Deixaremos de ter o vermelho pálido ou o branco das pétalas da flor por escrever.
Em segredo saberemos que a camélia existe.
Antes de na manhã do céu, o sol surge debaixo da minha pele.
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