Segunda-feira, 5 de Outubro de 2009
Por tempo indeterminado

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Domingo, 4 de Outubro de 2009
Dos provérbios

Ouço dizer que quanto maior for a altitude do voo, maior será o abismo em que se cai.

Tenho para mim que se há verdade nesta empírica sentença, o contrário também se verifica e quanto maior for a queda, maiores serão asas que nos crescem.



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Terça-feira, 29 de Setembro de 2009
Das derrocadas

Creio que todos temos na alma um pequeno botão, imagino-o vermelho, que se tocado faz iniciar a nossa muito particular autodestruição. Desconhecemos onde está situado e por isso tacteamos quase cegos tentando que os nossos dedos não encontrem a imperceptível pressão que nos levará ao fundo ou a implodir desfeitos em poeira.

Somos assustados resistentes sem a consciência da ameaça, mas atentos, instintivamente atentos, à procura da sobrevivência.

Se tocado, o botão desencadeia o abismo.

Esbracejamos como náufragos e como náufragos agarramos a fúria de pensar que fomos e estamos inocentes. Tentamos respirar através da culpabilização dos outros. É o nosso pedaço de madeira a flutuar.

Só os Grandes, os que não trazem medida, os que não usam conta-gotas na alma, se apercebem do início do precipício e assumem a consciência do próprio pecado. Sabem que são os únicos responsáveis pela derrocada e retiram os outros das falésias antes de morrer. Ilibam os outros.

Desfazem-se depois, mas sem poeira.



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Quinta-feira, 24 de Setembro de 2009
Retrato

“Tu és como a minha gata. Dás numa de fofo, mas depois apareces em casa com as vítimas meio mortas para brincar.”

Tiago


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Segunda-feira, 21 de Setembro de 2009
"Gosto de você, tigrezinho"

Trago as garras recolhidas. Sou um tigrezinho sonolento à espera que o Outono descontente me pouse sob a almofada das patas o requinte de um acepipe da cor das folhas secas onde preguiçoso me alongo a ronronar.


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Sexta-feira, 18 de Setembro de 2009
Porto de abrigo

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Este é o meu Porto. Uma mesa de água com pão de casario e névoa como vinho.

(foto de B. Zarkovsky)



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Quinta-feira, 17 de Setembro de 2009
Tempo de quimeras

Está no patamar superior das escadas. Continua soberbo.

É inegável a força essencial que possui para vergar aquela casa e a deixar ficar sem absorver a alma dos que nela entram.

Despedimo-nos e ainda é manhã.

A Rita esconde o corpo da brisa fria com o casaco que trespassa. Os olhos escondidos pelos óculos pretos com armação de tartaruga e o equilíbrio ameaçado pelos sapatos teimosos que encaixam na perfeição nos interstícios das pedras.

O Pedro tenta desesperado não se esquecer de nada. Durante todo o tempo espalhou pelos cantos os objectos que considera agora imprescindíveis. Rosna até ter a certeza que pode mergulhar no carro sem receio de memórias falhas.

Olho para trás. O homem acena. Ao lado tem o João que vai ficar. Vejo-o tocar no braço do senhor da casa. Um gesto improvável e proibido. Não está seguro o movimento, é ténue e enfraquecido, mas existe e é permitido.

Há cerca de três dias que observo a imperceptível alteração na relação dos dois. Sei do exacto instante em que se operou a metamorfose. Depois do jantar, quando todos se encontravam sentados nos cadeirões da sala a espalhar tontices pelo chão e a beberricar palavras sem sentido, o homem de prata, de lado para lado, impaciente como até ali não tinha sido, perdido em qualquer lugar fora dali, veio num rompante pousar a mão (demasiado súbito para não ser suspeito o gesto) no ombro vigoroso do biólogo. Senti-o estremecer. Vi, claramente visto e cego para os outros, o emudecer repentino e a chispa minúscula de triunfo nos olhos que se inquietaram de repente.

Tinha aquele gesto o poder imenso de estabelecer uma cumplicidade até ali negada, uma subtil estrada aberta entre duas árvores que se ergueram sem raízes próximas. Apesar disso, senti que havia uma estranha forma de permissão naquele toque, como se o homem das cisternas tivesse repensado aquele gesto até à exaustão, até ao limite em que o pensamento já se tornou impulso, como se tivesse estado à espera que o movimento fosse autorizado ou fosse o resultado de uma atitude externa e recebida como se de recado fosse ou de um pensar alheio a ele, como se o gesto fosse comandado.

Agora que o carro avança devagar, olho o homem no patamar superior das escadas. Já não acena. Tem no braço a mão do que o acompanha e que ao longe parece ser feliz, mas pode ser apenas porque o tempo é de quimeras.


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Terça-feira, 15 de Setembro de 2009
Cavalgadas

A aproximação da minha partida faz com que sacuda a poeira melancólica que tinha pousada no corpo. Acordo de repente como vigor e a força que se haviam perdido enquanto o tempo se espreguiçava ao sabor das sombras.

Espio o meu rapaz do Douro.

Encontro-o depois da cavalgada matinal, hábito mantido pelo Senhor da Casa que é substituído pelo rapagão quando não consegue suportar a impaciência do cavalo.

Nunca deixei de perceber a ronda que o cavaleiro de serviço me fazia. Sempre estive consciente dos olhos que me patrulhavam e dos gestos quase imperceptíveis que traduziam propostas subtis de enamoramento. Estava sempre perto de alguém quando o rapaz aparecia e por indolência nunca sozinho o procurei onde sabia que me esperava ao entardecer, na hora entre o cão e o lobo.

Vejo-o encaminhar o animal suado. Desço as escadas. Sei com exactidão o que desejo.

Está virado de costas. Não me sente, atento e atarefado com os arreios e a sela e as ferragens. Consigo sentar-me e ficar parado a ver sem ser percebido.

Gosto daquelas calças de montar, claras, de tecido elástico que lhe moldam as nádegas e que possuem um ligeiro fole, quase que nada, nas coxas que adivinho e que sei de cor. Existe uma costura oval que as atravessa, nádegas e parte traseira e dianteira das coxas. “Costura de borracha”, explicaram, mais potente evita os rasgões feitos de esforço. A camisa axadrezada está aberta. Vejo o tecido esbracejar nos movimentos largos do rapaz.

Quero que o rapaz se vire e que me veja.

- Gosto de bichos suados. – Não há nada como uma brutalidade idiota para despertar atenções.

Virou-se.

Apanho agora no corpo todo com o esplendor dos peitorais nus, o início exacto da estrada de pêlos macios que serpenteiam os músculos da barriga, com o desenho inevitável e evidente do sexo deixado esquecido (as calças são fantásticas!).

- Gostava que não me incomodasse. O cavalo não está habituado a estranhos.

- Não sou estranho. Tenho-lhe dado cenouras. – Mais uma tirada destas e abdico.

- As cenouras não o vão acalmar agora. – Funcionou. É tão dramaticamente fácil!

- Posso tentar. – Volto a ser inteligente e nada óbvio.

Aproximo-me. Desfraldo-lhe a camisa. Não resiste. Três botões nas calças de cós alto. Belíssimos botões, atraentes e irresistíveis botões nas calças de cós alto. Desaperto o primeiro. Não resiste. Os meus dedos afloram-lhe os pêlos, vão tocando. Não resiste. Empurro-o e mordo-lhe a boca com a lentidão das bruxas a rolar colheres nos caldeirões.

Agarra-me e magoa-me. Tem a força do que explode depois de recalcado.

Gosto. Agrada-me.

Vai puxar-me de encontro a uma erecção mais que evidente e é nesta colisão brutal que desabamos de encontro ao poderoso lombo do cavalo.

Empina-se assustado o monstro!

Relincha bruto nervos e suor e ferro e baba!

Larga-me o rapaz, empurra-me para longe e tenta a todo o custo acalmar o bicho.

Desequilibro-me e tombo sentado no mocho de madeira onde é normal sentar-se a calma de quem arranja às bestas ferraduras.

Perde-se de rompante e irreversivelmente a atmosfera idílica e campestre. Não há bucolismo (embora este fosse quase porno) que resista.

Estouro a rir e compreendo que tenho de oferecer a cenoura a outros bichos.



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Segunda-feira, 14 de Setembro de 2009
Do tempo de passagem

Admito que é impossível ficar muito tempo aqui sem sermos preenchidos por uma espécie rara de nostalgia enevoada. Talvez surja do silêncio ou da imensidão sussurrante das árvores ou das águas pacíficas que espelham quase negras as silhuetas dos velhíssimos teixos. Talvez os dias passem sem sentirmos, iguais em cada dia a passar, mas insinuam ter dentro uma forma estranha de destruição que alagará as almas a qualquer instante e de surpresa.

A minha sorumbática atitude arrasta-se pelas horas devagar. Sinto-me pasmado, parado e sem vontade. Espalho-me pelos cantos e admito sem pudor ou embaraço a minha indiferença a tudo. Passo pelos corredores inútil e disperso. Nada é quente. Nada me provoca.

A imensa e doentia dolência, o entristecimento deste lugar, parecem fazer vítimas constantes.

Olho o rapaz do Douro, a cicatriz na sobrancelha nos socalcos do olhar. Usa calças de montar com recortes estratégicos, quase anatómicos, botas de cano alto, pretas, de couro, e uma camisa larga axadrezada. Sei que me quer e que o desespera a minha placidez quase um insulto. Sei que o posso ter, meu, a todo o instante e nessa certeza é derrubada a ânsia e o desejo.

Aqui, no Douro das cisternas, não desejamos muito. Aguardamos só que o tempo se espreguice e no bocejar do tempo  sem palavras e sem gestos, esperamos o derramar das horas dos desejos.



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Sexta-feira, 11 de Setembro de 2009
Do meu ouvir

Os meus dias mais perfeitos são aqueles em que ouço devagar contar histórias velhas e perdidas de pedaços dispersos de lugares onde a hera cobre a doçura longa e branca das janelas. Ouço e no meu ouvir há o pasmo descoberto enquanto as palavras se enrolam na placidez do que é contado, como a hera na doçura longilínea da janela.


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Quarta-feira, 9 de Setembro de 2009
A sombra do rio

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Existe junto à água deste rio um banco de jardim abandonado. Diz a gente que era ali o lugar onde passava o tempo longe, o rapaz esguio, de linho, pés descalços, de palavras raras, sem sorriso.

Sentava às tardes nas sombras, sorvia a frescura como dele fosse a luminosidade húmida das águas e fazia rolar por entre os dedos o destino da terra, como é rolado um terço ou ele uma repetida oração de forma mais surda.

O banco de jardim deixou de o ver há muito.

A água às vezes toca-lhe a madeira. Nessas alturas das marés de um rio, o banco do jardim abandonado volta a sentir a lonjura triste do rapaz que passou pela vida como se a vida fosse sombra num jardim ou a oração rolante deste rio.



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Terça-feira, 8 de Setembro de 2009
Dos dias planos

Tenho agora os dias planos, como um lençol que flutua. Gosto quando é tarde para tudo e tudo o que ficou por fazer nos dias planos sustenta e equilibra o flutuar das horas.

Gosto de pairar onde não há nada e o que houver virá depois, adiado e entardecido, como um envelope que nos esquecemos de enviar, mas que por estar vazio chegará ao destino mal nos aprouver, porque o vazio encontra sempre as mãos do dono.



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Segunda-feira, 7 de Setembro de 2009
A Senhora do Hotel Lis

A morte da minha tia-avó não teve qualquer impacto visível em mim. Passou como se viajasse e encontrasse no caminho um banco fresco ou um fio de água, como se parasse então para beber, de mãos em concha, para logo retomar o seu destino sem olhar em redor para me ver.

Irmã mais velha da minha avó Hanna, a senhora de nome tão impronunciável que dele foi feito um diminutivo que a diminuía, Minita, desprezou de modo supremo o país onde viveu durante quase toda a sua vida. Fumava cigarrilhas e falava holandês com o casal de velhos empregados que com ela viviam, primeiro num edifício soberbo no centro de Lisboa, depois, na última década, na quinta duriense, propriedade da irmã que lha cedeu.

Dela tudo o que sei foi-me contado. Fama de leviana e doidivanas, excêntrica, esbanjadora e destravada, nocturna e amante de champagne e poker, jogava ténis e conduzia, doida, um carro nas altas madrugadas da cidade.

Nada existe seguro pelo fio da minha própria memória, a não ser um minúsculo episódio em que a acidez, a aridez e o sarcasmo da velha senhora se atenuou (brevíssimo momento) ao se debruçar sobre o sobrinho-neto e, num dos raros momentos em que nela se vislumbrava uma gotícula de ternura, lhe confidenciou a maior fraqueza: escrevia “coisas”!

Nada de imortal. Rimas. Apenas rimas.

Secretamente disse ao rapazinho que tinha mesmo ganho um “concursinho”!

Na telefonia desafiavam os senhores ouvintes a inventar uma quadra de homenagem ao Hotel Lis, de que não sei a história. Ela ganhou, mas nunca quis sair do anonimato

Hoje (vinte anos depois!) descubro-me a recitar a quadra do triunfo. Durante todo o tempo, depois desta confidência tocada por champagne, percebo que nunca esqueci a vencedora incógnita que na telefonia homenageava o Lis:

 

Lisboa para ser Lisboa

Tem de ter o Lis ao pé.

Sem o Lis, pode ser boa,

Mas Lisboa é que não é.

 

Agora já sabem de quem é o prémio.



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Sexta-feira, 4 de Setembro de 2009
O almoço de Jasmina

Jasmina traz agora as chaves presas à cintura e faz chocalhar o braçado gordo sobre o avental de pano cru com bordadura colorida na bainha. Engordou de orgulho e ganhou um brilho seguro nos olhos pequenos e piscos.

Gosto da Jasmina, embora saiba que nunca a Jasmina poderá gostar de mim. Entre os dois há um socalco sem vinhas ou a intransponível distância lavrada por arados demasiado diferentes. O dela tem estrelas recolhidas pela terra, o meu não conhece terra e de estrelas ouviu falar apenas.

Serve ao seu Senhor batatas e bacalhau cozido. Rega-as com azeite e mistura um alho migado e uma gota de vinagre de cidra. O ovo rola oleado no prato de porcelana antiga. Enche o copo com vinho maduro alentejano e fica à espera, erguida na poderosa posição de cuidadora do homem de prata, dono de Jasmina.

Atenderá os outros depois.

A minha irmã, sentada à direita do homem já servido, vai debicar folhas de alface, com estilhaços de bacalhau seleccionados e arrefecidos, tiras de cenoura crua, quadrados minúsculos de tomate, pó de salsa e rodelas finas de ovo cozido. Jasmina aproxima o galheteiro do animal quieto. Um fio fino de oiro desce. A minha irmã sorri.

O Pedro não escolhe nada. Limita-se a recolher no prato o que lhe dão, com a indiferença azeda dos grandes resmungões e espera tamborilando a impaciência na toalha branca. Gosta muito da Jasmina e revolta-se contra a seriedade dos gestos da mulher e a passividade inútil com que os recebemos. Jamais entenderá a raiz do tempo aqui.

O João, biólogo de serviço que se descobre botânico recente, procura disfarçar o embaraço de se ver sentado em frente da única mulher que o pode assassinar apenas com um dito. Jasmina serve-o de forma igual à do Senhor da casa. Entre os dois homens gigantes foi criada uma cumplicidade com terra na boca. Aproximam-se cada vez mais e procuram juntos, tardes a fio, os modos de alterar a terra, de tratar dos bois e dos cabritos, de preparar vindimas, de cuidar árvores de fruto e de escolher adubos para que as novas hortênsias abram cor de sangue.

Jasmina serve sem saber o almoço a três figuras densas, espessas e potentes, quase antagónicas. Quando os deuses escolhem juntar os paradoxos, a vida inteira treme de surpresa.

A mesa está servida. O jogo que comece.

Eu? Eu sirvo-me sozinho. Os olhos comem.


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Quinta-feira, 3 de Setembro de 2009
Das árvores

Aqui, as árvores desprendem os perfumes dos ramos. Descem os aromas pelos troncos como bichos cansados do calor, roçam-nos a pele, farejam-nos, e mergulham nas águas arrastando os líquenes e o musgo húmido para o fundo negro sem vista.

São como segredos.


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Terça-feira, 1 de Setembro de 2009
De olhos fechados

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 Se correr as portadas e impedir que a luz se atreva a começar, se me sentar quieto na cadeira do meu quarto e pousar as mãos cruzadas nos joelhos, fico como se fechasse os olhos nas pontes de Paris ou como se tivesse perto a Capela do Senhor da Pedra onde a areia servia de bruxedo e havia uma concha partida no parapeito da adolescência, um amuleto.

A minha idade é aquela que deixei ali, coberta pela poeira que fazia o vento levantado e as pontes de Paris são os meus olhos fechados.



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Sexta-feira, 31 de Julho de 2009
Gare

O meu corpo exige amantes.

Passageiros breves em gares abandonadas à espera dos destinos que não sabem.

O meu corpo é de ferro e de lama e tem um relógio redondo sem ponteiros e painéis de papel amarrotado onde os viajantes procuram as linhas sem nunca perceberem que não há horas e que não há regras nem carris.

O meu corpo viaja por eles. Eles ficam.

Todas as paisagens que passariam, se eles viajassem, são as minhas. Eles olham os papéis amarrotados e consultam as horas e usam os dedos para apontar lugares onde querem chegar. Nunca chegam a chegar.

O meu corpo parte sempre antes do embarque.



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Sexta-feira, 24 de Julho de 2009
Casa interdita

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Gosto de promessas que se cumpre. Sobretudo porque poucas vezes cumpro as minhas.

Recebo as fotografias, captadas, tratadas e trabalhadas pelo compulsivo desejo de perfeição da minha irmã, do biólogo que partiu à procura de árvores.

Encontrá-lo-ei, prolongando exageradamente a busca, quando regressar ao Douro, em Agosto. Nessa altura quero assistir ao vivo ao confronto dos dois gigantes. No entanto, já consigo ler no que vejo os indícios da batalha.

Não reconheço os lugares por onde ele anda. Aparecem-me distorcidos, confusos e expulsos da figuração principal. A minha irmã retém apenas o que mais lhe importa e a flora desordenada nunca entrou no rol das suas preferências.

A incapacidade da Rita se afastar e embrenhar nas silvas e nos montes, nos lugarejos povoados por criaturas que desconhece por completo e a repulsa às irregularidades dos caminhos e socalcos, faz acreditar que o homem não está longe da Casa onde há cisternas.

Não está dentro. Nunca está dentro da casa.

Este é o principal foco da minha atenção e o sinal claro do início do conflito.

A Casa foi adquirindo uma entidade própria e uma determinação indómita. Foi, enquanto o tempo avançava, sobrepondo o desejo das pedras à vontade do dono de modo que se deixou de perceber quem dominava quem. Como no poema, o senhor tornou-se servo, por amor.

A Casa vai construindo as ordens, vai solidificando o poder da pedra sobre a carne, vai erguendo o seu esmagador domínio sobre o homem que a deixou de ter, porque ela o tem. Decide quem entra, escolhe quem será expulso e responde agressiva àqueles que sem o seu consentimento se atrevem a passar. Mas nunca passamos se formos ameaça. Nunca passamos se lhe causarmos ciúmes. Não somos acolhidos se arriscamos o amor daquele que é dela.

A Casa contém o interdito e cuida do fantasma. Não permite a invasão da mais ínfima partícula de Esperança. Impede a luminosidade dos pássaros e a cumplicidade dos amantes.

O homem dormirá portanto a dois palmos do portão.

 

Quando eu chegar, vou ajudá-lo a combater as pedras.


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Terça-feira, 21 de Julho de 2009
Quando chover em Paris

Quando chovia em Paris, abrigava-me nos umbrais dos edifícios e esperava. Mantinha-me quieto e inventava histórias nas nódoas de chuva que alastravam nos passeios.

Às vezes fazia muito frio. Nessas alturas os momentos de chuva a cair apeteciam-me tanto que me esquecia das horas e era capaz de passar, pasmado, todo o tempo do meu mundo a olhar para o chão que se encharcava. Os sons de Paris acinzentavam-se e as luzes chapinhavam nas poças que alastravam.

Creio que era feliz naqueles pedaços de chuva estatelados. Abraçava-me, apertava o casaco, amarfanhava a camisola junto ao pescoço e tentava manter os pés quentes batendo com eles nas pedras abrigadas.

Lembro-me que tinha umas luvas grossas de pele, forradas que me aqueciam demasiado as mãos. Nunca gostei de luvas, mas aquelas tinham sido dadas pelo meu avô e usava-as como quem usa um talismã ou um golpe de saudade. Mantinha as mãos enluvadas próximas do nariz, porque gostava do cheiro do couro misturado com o cheiro da chuva e da memória do meu avô.

Perdi uma no metro. A outra ainda a tenho na gaveta. Vou, de vez em quando, quando não há chuva, procurar o levíssimo rasto de felicidade que nos umbrais dos edifícios de Paris ficava quieta enquanto me abraçava. Havia sossego, como se não precisasse de nada, como se me bastasse, como se estivesse isolado, à parte, e então sentia a cidade como coisa minha. Só eu e Paris, nos umbrais molhados.

Fiquei uma tarde, já tarde (tão tarde!) seguro pela chuva. Fechei o casaco e calcei as luvas, amarrotei o abraço para não sentir frio e fiquei a ver o sossego pasmado. Veio então de novo aquela morrinha que é ser feliz ou pensar que o somos. Procurei as luvas sem me aperceber que já não as tinha e não tinha nada a não ser um canto de Paris à chuva e senti a chuva a cair cá dentro.

Quando chover em Paris, quero sentir as pedras alagadas.



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Sexta-feira, 17 de Julho de 2009
Toi et moi
 

(...)
Aime-moi
Fais-moi l'amour encore
Encore et parle-moi
Pour que jusqu'aux aurores
Aux sources de nos joies
Mes jours se noient
Dans toi et moi.
 

Parabéns, Ricardo


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