A Laura bebe champagne numa das esplanadas de Paris.
A imagem é quase cinematográfica e a mulher consciente do facto apura os detalhes e cuida dos pormenores. Comemora a vitória burocrática sobre um esmagado litígio e os honorários sustentam os convites que fez para retocar a cena.
As calças afuniladas, pretas e vincadas, aumentam-lhe as pernas que vai descruzando num exercício de esgrima e a camisa branca de homem, de colarinhos rígidos, é enferrujada pelos caracóis de incêndio desalinhado e quase em fúria.
A Laura tem as mãos grandes, dedos finos e unhas ovaladas e perfeitas. Move-as com vagar de modo a que a pulseira de pérolas no pulso acompanhe a dança dolente dos gestos compassados. Tem os olhos dourados com pestanas grossas, lânguidos, pausados. Não há relances no olhar da mulher. Olha devagar e o langor do olhar é já matreiro. A Laura espreita, espia, espera como o leopardo.
Reuniu o grupo de Paris adolescente, ou que dele resta, e permitiu a entrada no círculo quebrado de iniciados, noviços que mede sem dó nem piedade.
O Pedro rabuja (mau humor eterno!) e defende a marca indelével da escultura na obra pictórica de Miguel Ângelo. Ninguém o ouve a não ser eu, que acredito na influência de Platão na produção artística do Mestre.
Laurent, o arquitecto, fuma cigarrilhas e defende Rafael, depois de ter renegado os mil metros quadrados do tecto da Capela.
Jules, o jovem médico, bombeiro de Paris ao mesmo tempo, sorridente e reservado, com olhos de silêncio e timidez, arrisca a renascença do grupo incendiado pelo brilho dos cabelos da mulher que o aprova e conta historietas sobre Hemingway.
A pequena parisiense, hiperactiva, Mathieu traquina ou um pardal esperto, com corpo de gazela e perfume de Dior, beberrica Colette enquanto saltita nos olhos dos rapazes que passam e a derivam.
Olho-os e não sei se o tempo é tempo de esplanadas de mulheres e de vadios destes. Não sei se Paris suporta ainda este ruivo bando de palavras, solto no ar, inútil, desenhado no sol entardecido da cidade.
Na minha frente, existe outra esplanada. Sórdida, sombria, sem pérolas ou caracóis vermelhos, sem tectos, sem Dior e sem Laurent, o jovem arquitecto.
Na minha frente, Paris não tem palavras.
Laurent, o arquitecto, fuma cigarrilhas e defende Rafael, depois de ter renegado os mil metros quadrados do tecto da Capela."
não seria mais fácil medirem as pilas um do outro?
a senhora leopardo tirava a prova dos nove :)
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